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Raízes e Reencontros: “Eu e Meu Avô Nihonjin” traz às telas uma saga familiar que ecoa no coração Nikkei

O lançamento da animação “Eu e Meu Avô Nihonjin” (2024), adaptação do premiado romance de estreia de Oscar Nakasato, vencedor do Prêmio Jabuti, é mais que uma mera estreia cinematográfica. É uma poderosa jornada de identidade e memória que toca profundamente o cerne da experiência Nikkei no Brasil e enriquece o panorama cultural brasileiro.

A animação dirigida por Célia Catunda (conhecida por O Show da Luna e Peixonauta) teve sua estreia mundial no prestigioso Festival de Annecy , na França, o maior evento de animação do mundo. A obra não apenas foi selecionada para a mostra Annecy Apresenta, mas também foi apresentada ao mercado internacional no Marché du Film, durante o Festival de Cannes, sublinhando seu potencial global.

O filme se debruça sobre a saga da família Inabata, com uma particularidade narrativa: a transposição da obra original para a animação brasileira, desenhada à mão, mas com a sensibilidade e os traços que remetem aos animes típicos do Japão, criando um emocionante e harmonioso encontro cultural.

Filme Eu e Meu Avô Nihonjin
Cena de divulgação do filme Eu e Meu Avô Nihonjin

A Busca pela Origem e o Choque de Gerações em Eu e Meu Avô Nihonjin

A trama é habilmente conduzida através dos olhos de Noboru, um menino de 10 anos que, movido pela sua descendência, decide desvendar a história migratória e os mistérios de seus antepassados. O único elo com esse passado é seu avô, um senhor “nihonjin” – “japonês” – orgulhoso e inflexível, que teima em evitar o assunto.

Essa insistência do neto desencadeia uma série de conflitos essenciais. De um lado, temos o avô, Hideo Inabata, o imigrante que chegou ao Brasil no início do século XX, imbuído da sagrada missão de levar recursos à pátria-mãe. Sua resistência em ceder às influências da cultura local é a teimosia da honra de um autêntico nihonjin, mesmo diante de adversidades como o trabalho árduo nas lavouras de café e os choques culturais.

Do outro, Noboru, uma criança que representa a terceira geração, buscando afirmar a sua identidade brasileira, mas compreendendo-se através do legado de seus pais e avós. É um espelho que reflete o dilema central de muitos descendentes: como honrar a cultura de origem e, ao mesmo tempo, abraçar plenamente a nação onde nasceram?

O Poder da Adaptação e a Aventura Além do Livro

A força de “Eu e Meu Avô Nihonjin” não reside apenas em sua fidelidade ao material de origem – o livro Nihonjin –, mas na sua coragem em ir além. A animação consegue sintetizar uma saga familiar que abrange décadas, desde a vida dura na lavoura e o florescer do comércio no bairro da Liberdade, até os momentos dolorosos da perseguição sofrida pela comunidade nipônica durante a Segunda Guerra Mundial.

Filme Eu e Meu Avô Nihonjin
Eu e Meu Avô Nihonjin

A adaptação mostra que o cinema nacional tem nas mãos um ótimo exemplar de animação, capaz de promover uma viagem emocionante e educativa pela memória. A descoberta de um tio desconhecido por Noboru é um artifício que ilustra como o filme, de forma lúdica e visualmente rica, preenche as lacunas do passado, ligando pontas que o trauma e o tempo tentaram desatar.

Nakasato, ao narrar a saga pelo neto Noboru, lança luz sobre o amor, as distâncias e as diferenças de três gerações que há mais de cem anos vêm tecendo os fios da história brasileira. O filme captura com sensibilidade a dor universal de ver os próprios sonhos se esvaírem, mas também a resiliência em reconstruí-los em uma nova terra.

Com o relançamento do romance em nova edição, embalado pelo sucesso da adaptação, a jornada da família Inabata volta a convidar à reflexão. Como bem pontua Leonardo Sakamoto no texto de orelha: “Nihonjin é um espelho, talvez desconfortável. Porque, no final, todos estamos tentando responder à mesma pergunta: quem somos nós nesta imensa lavoura chamada Brasil?”

Para o público descendente de japoneses, “Eu e Meu Avô Nihonjin” não é apenas entretenimento; é um documento de legado e pertencimento. Para o público brasileiro em geral, é uma janela única para compreender as complexidades da imigração e a riqueza cultural que a comunidade nikkei adicionou à identidade nacional.

Publicado em:Japão,Brasil-Japão,Cultura,História

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